O mundo de hoje é mimimi

“Fotojornalista nem pode fotografar criança com o corpo queimado”

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“Essa foto hoje em dia. Pelo amor…

As feministas iriam falar que era uma foto machista, pq a unica pessoa nua é uma menina
A galera do ECA iriam boicotar a foto, por conta da exposição das crianças em condições blablabla
Os direitos humanos iriam cair matando no exercito, pq é um absurdo eles não vestirem e ajudarem as crianças”

 

Recebi a foto e o texto acima no nosso grupo do WhatsApp (grupo do IAF) e junto dela esse texto acima. Na hora eu comecei a pensar e a resposta estava na ponta da língua, foi quando o autor das mensagens completou:

“se postasse a foto no face ou insta, esta seria excluida por conter cenas de nudez
Dai o autor teria que colocar tarja”

Bem, eu acredito que chegamos onde chegamos, no nível de consciência atual – que alguns chamam de mimimi –  justamente porque fotojornalistas históricos se pautaram por lutas de direitos humanos. Imagens como essa não são feitas para serem replicadas, mas para não acontecerem mais. Quando eu me inspiro em grandes fotojornalistas de alguma guerra mundial e fotografo os conflitos urbanos que acontecem no Rio de Janeiro, eu não quero que cada dia tenha mais violência para que eu tenha mais imagens, pelo contrário! A grande foto costuma ser a fama e a desgraça de um grande fotojornalista.

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Foto do Menino e o Abutre – Kevin Carter

Como se esquecer dessa fotografia de Kevin Carter, que lhe rendeu um Prêmio Pulitzer e uma via crucis até o suicídio aos 33 anos (como dito no neste artigo do site Magnus Mundi) .

O ponto é: Porque fazemos o que fazemos?

Eu não posso falar por todos os fotojornalistas, mas posso falar por mim, que apesar de estar afastado das ruas, eu sinto essa vontade muito grande de trazer à luz muitos assuntos que não são claros para grande parcela da população, ou mesmo que não são claros para uma pequena parcela, que detêm o poder de mudar muitas realidade retratadas, como cotidiano das comunidades cariocas. Esse pensamento foi um amadurecimento que veio com os anos, mas era uma vontade que eu não sabia expressar. Antes eu achava que só queria fazer uma grande foto, uma fotografia histórica, que marcasse meu nome nos prêmios. Hoje eu vejo que os grandes não tinham prêmios como objetivo, mas a mudança de uma sociedade, do mundo.

Com a modernidade cada vez mais as pessoas tem uma câmera na mão. É raro alguém que não tenha um Smartphone com no mínimo duas câmeras. Todos hoje podem “ser” fotojornalistas. Isso é ótimo para a velocidade da informação, mas péssimo para a qualidade. Não é só fazer uma foto e divulgar o mais rápido possível, é criar uma imagem que transmita uma mensagem. Não é expor os fatos, é construir uma narrativa para que a sociedade se sensibilize e seja o agente de mudanças. Por isso cada vez mais precisamos sim tomar cuidado com o que é publicado e não trazer exposições desnecessárias. As fotos históricas tem conceitos históricos. Não podemos comparar a foto de um assassinato, feita durante a Guerra do Vietnã, com uma foto feita durante uma operação no Complexo do Alemão, em 2018Temos duas situações ruins e complicadas, porém são contextos políticos, sociais e históricos, muito diferentes.

Execution of a Viet Cong Guerrilla (1968) - Fotografia: Eddie Adams
Execução em Saigon (1968) Fotografia: Eddie Adams

Não é a função do fotojornalista ganhar prêmios,  isso pode ser uma consequência de um trabalho bem feito, mas sua função e missão devem sempre ser informar e trazer da melhor forma possível através de sua composição fotográfica os acontecimentos contemporâneos a ele para que possamos aprender, enxergar outras realidades e evoluir. Um povo que conhece sua história não repete seus erros (ou não deveria). Graças ao fotojornalismo nós temos um vasto material do que a humanidade é capaz de fazer e podemos refletir sempre sobre isso. Então, de maneira alguma podemos dizer que vivemos em um “mimimi”. Na verdade, se me permitem, CONQUISTAMOS esse “mimimi” ao longo dos anos. E o que chamam de “mimimi” eu chamo de evolução do pensamento crítico.

Espero, de coração, que cada situação triste que registro nunca se repita.
A glória de um fotojornalista não se dá por prêmios, mas por mudanças significativas na sociedade que acontecem através de suas imagens.

Menino Sírio afogado Nilufer Demir / Reuters
Menino Sírio afogado Nilufer Demir / Reuters

“Em 2015 a Europa enfrentou uma das mais graves crises migratórias da sua história recente . Milhares de sírios trocam a perspectiva de uma morte certa em território controlado pelo Estado Islâmico pela possibilidade de sobreviver no continente europeu”(uol). Casos de xenofobia não foram difíceis de serem vistos nesse cenário e um total ambiente anti imigratório começou a se formar na Europa. Essa foto é aquela que ninguém tem prazer de fazer e você pode perguntar a fotógrafa Nilufer Demir, da agência Routers, e ela vai te falar o quanto é desagradável e triste registrar algo assim. Aliás, já perguntaram e segue o link: “Tomé la foto para mostrar la tragedia”

“Eu não pude fazer nada por ele. A única coisa que pude fazer é que seu choro fosse ouvido no mundo e eu fiz isso com sua foto ” , disse Demir, 29 anos.

Vendo a entrevista de Nilufer Demir e todos os eventos e a comoção que se deu após essa fotografia entendemos o poder que ela tem e o quanto ela foi necessária. Onde quero chegar? Quero chegar na reflexão de que algumas fotos precisam chocar, quando tem objetivos a serem alcançados. Com o advento da tecnologia precisamos cada vez mais nos preocuparmos com os objetivos das fotografias e discutir sempre sobre a linha tênue entre apenas expor e informar. Essa foto do menino Sírio afogado, inclusive, não teve uma repercussão de “mimimi”, pelo contrário, ela comoveu o mundo e se mostrou necessária. O que vocês (nós, às vezes estou nessa também) chamam de mimimi é apenas uma sociedade querendo refletir sobre assuntos que não tem respostas fáceis.

 

 

 

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